segunda-feira, 9 de março de 2009

"The Magic", o grande truque de Jarre

Era um Fantástico qualquer de uma noite de domingo qualquer, só que em meados dos anos 80. Na época o programa costumava exibir no bloco final uma atração musical. Geralmente um clip do novo trabalho de algum artista famoso. E aqui está a primeira curiosidade sobre a estréia "global" do vídeo de Rendez-Vous IV: Jean-Michel Jarre era um desconhecido para a esmagadora maioria da população brasileira. Claro que a música era - e continua sendo - um clássico absoluto, um sucesso de público presente desde então em quase todos os concertos do tio. Também era certo que muita gente já tinha entrado em contato com Oxygene 4, Equinoxe 5 ou Souvenir of China. Só que poucos ligavam essas composições ao compositor.

Eram anos marcados por extravagâncias que passaram a fazer parte da memória como clichês bizarros tais quais cortes de cabelo mullet, ternos cítricos com ombreiras e mangas arremangadas, óculos escuros dos mais variados formatos e tamanhos, relógios multi-coloridos, etc. Jarre, assim como outros artistas, não deixou de ser influenciado por esses modismos. E aqui entra o grande barato do clip de RV4: um certo teclado em forma de meia lua, com teclas que acendiam ao serem pressionadas. Um instrumento que parecia ter saído direto de uma tela de Salvador Dali e cruzado com a calçada em que Michael Jackson pisava em Billie Jean. "Ali", o artista conceituado sem rosto dava lugar a um dos maiores ícones pop da história. Jarre forjava definitivamente a sua imagem de "mago do som e" - sobretudo - "da luz".

Visionário, Jarre notou que tempos extremos requeriam performances extremas. Não bastava somente estar armado de teclados e mais teclados até os dentes. Rick Wakeman, por exemplo, já havia utilizado esse cenário impactante centenas de vezes. Além do mais, o francês notou que montanhas de teclados o fariam virtualmente sumir no meio do incomparável espetáculo de luz que seus concertos estavam se tornando. Portanto, a alternativa foi brilhar junto, fundir-se ao show sem ser absorvido pelo mesmo. Assim, em 1986 a LAG (uma empresa francesa fabricante de guitarras e baixos) e o tecladista desenvolveram o equipamento customizado conhecido como "The Magic", que por si só já era uma atração e tanto. Aliado a persona de Jarre, que de fato parecia pretender emular um tanto a estampa de David Copperfield, e voilá... a mágica aconteceu.

O peculiar nessa história - e o que pouca gente percebe - é que pela primeira vez um músico se tornava mundialmente reconhecido ao unir sua imagem a um impressionante intrumento que na verdade... não produzia som algum. Convenhamos, isso ainda é muito estranho. Porque teoricamente "The Magic" foi concebido para funcionar como um controlador. Mas não foi o que ocorreu na prática. Embora utilizasse a tecnologia MIDI (protocolo de interconexão entre instrumentos digitais), o sistema era arcaico, não utilizava ainda o padrão estabelecido como "General MIDI", o que complicava que comandasse outros sintetizadores de maneira satisfatória. Além disso, embora vistoso, não era nada funcional, uma vez que não possuía bemóis e sustenidos, as famosas "teclas pretas" presentes em qualquer teclado. Elas só foram adicionadas no concerto de Lyon (foto acima), e mesmo assim serviam somente como enfeite. Mas para um teclado desse porte, funcionar ao vivo era só um mero detalhe. E nos anos que se seguiram a LAG criou vários novos conceitos de "The Magic" para Jean Michel, como o monstruoso Grand Central, presente em Docklands e que mais parecia um laboratório ambulante do Dr. Frankenstein.

Porém, como qualquer piada que se repete várias vezes, o truque foi perdendo a graça, o efeito desejado na platéia já não era o mesmo. E entre músicos, cada vez mais ao tio rendia a pecha de "artista de playback". Pior, muitos questionavam se ele realmente tocava alguma coisa, se não era uma espécie de Mily Vanily dos teclados, com músicos de verdade trancafiados no estúdio a fazerem seu serviço. Claro, era uma tremenda de uma ignorância, mas o estrago estava feito. Em 1995 Jarre aposentou definitivamente seus incríveis teclados circulares. A partir dos concertos de Oxygene 7-13 passou a utilizar sintetizadores "comuns", como o Clavia Nord Lead e o Quasimidi Raven, apesar de continuar a encenar que estava tocando na maioria das vezes. Obviamente ele também não abriu mão da presença da harpa-laser nesses espetáculos. Afinal Jarre sem ela seria como Darth Vader sem sabre de luz.

E o que aconteceu com o "Magic"? Ele está guardado como se fosse a Arca da Aliança em uma câmara secreta a vácuo da AERO Productions? Bem, há alguns anos ele - ou algo MUITO parecido com ele - deu as teclas em um famoso site de leilões europeu (PREPARE-SE: imagens chocantes):














Segundo o sujeito que estava vendendo o teclado, ele o havia encontrado abandonado em uma garagem. O valor do regalo em 2007 (época do leilão)? Um milhão de Euros, o que hoje equivale mais ou menos a três milhões de pilas brasucas (!!). Pelas imagens, verifica-se também que os pads exagonais para percussão acompanhavam o produto.

Infelizmente eu não sei qual foi o fim dessa negociação. Mas considerando o que Jarre pretende fazer com a nova turnê mundial intitulada "IN-DOORS", na qual ele promete executar em estádios seus maiores clássicos com a toda a megalomania de seus famosos mega-concertos, seria muito legal se pelo menos Rendez-Vous IV fosse tocada em um LAG. Porque, a bem da verdade, Rendez-Vous IV só é Rendez-Vous IV em um LAG. Sem um "The Magic" nessa música, Jarre parece Darth Vader sem a Estrela da Morte. Em nome dos velhos tempos, tio.

* Como qualquer fã tecladista, Bareta já sonhou em ter um LAG. O problema seria que algum imbecil sempre perguntaria quanto tinha custado aquele "Casio Sandy e Junior" tamanho família.

5 comentários:

  1. Ótimo texto, muito bom! Realmente para nós, fãs do francês ver o LAG assim, todo empoeirado é de dar pena! Já imaginaram encontrar uma joía dessa em uma garagem?

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  2. Puta que pariu... matéria clássica, Bareta...
    Fiquei triste mesmo... acabou meu dia. São 6:56 da manhã... Isso não é um final legal pra este teclado :(

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  3. Pôxa, e disseram em um site que esse teclado estava no "personal museum" do JARRE. É uma pena...!!!

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  4. É triste ver o tlecado que deu vida à carreira do jarre acabar assim,jogado as traças.Ele deveria ter um destino mais dessente como estar em algum museu.

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